Revista Agregados SP

Mineração: Essencialidade silenciosa & Reputação ruidosa

.......A mineração vive o dilema de mostrar à sociedade sua indispensabilidade — a civilização não pode se manter e prosperar sem os produtos minerais — ao tempo em que convive com eventos que impactam sua imagem e reputação. Trata-se de uma tensão permanente entre a essencialidade silenciosa dos bens minerais e o ruído estridente das crises reputacionais que os envolvem.

.......Muito esforço tem sido feito, especialmente depois dos acidentes de Mariana e Brumadinho, com essa finalidade. Mineração sustentável, “mineração sim, mas não a qualquer preço, as políticas ESG na mineração têm sido parte dos comandos adotados, todos até com relativo sucesso. As pesquisas feitas pela mais conhecida entidade do setor mostram uma certa recuperação reputacional. São tentativas de reposicionar o setor dentro de uma lógica de responsabilidade socioambiental, alinhada às exigências contemporâneas de transparência, governança e ética corporativa. No entanto, paradoxalmente, esses esforços sucumbem a novas e sucessivas crises, que repõem máculas nas reputações que marcam os empreendimentos de mineração quase que indistintamente. A generalização e polarização tão abundantes neste momento do país contribuem sobremaneira para estereotipar todo o setor. A mineração, nesse cenário, torna-se refém de uma narrativa que a simplifica e a condena, ignorando sua complexidade e sua contribuição estrutural para o desenvolvimento.

.......Neste momento, o ítrio, o escândio e um grupo de 17 elementos químicos que inclui os lantanídeos, que aparecem pela primeira vez no noticiário não técnico, despertando curiosidade sobre seus usos, sofrem momentânea interrupção de protagonismo. Os nomes bonitos - cativantes pelas grafias e sonoridades - de um cério, do praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio — voltam ao sótão dos elementos desconhecidos. A invisibilidade desses elementos, tão presentes em tecnologias de ponta, revela o paradoxo de uma sociedade que consome seus benefícios sem reconhecer sua origem.

.......A essa coleção de minerais não tão "rara" em termos de abundância, mas de tecnologia de processo dominada por poucos para suas separações, podem ser adicionados os chamados “minerais críticos” — lítio, cobalto, níquel, grafite e cobre — fundamentais para a transição energética, na fabricação de baterias, painéis solares, turbinas eólicas e semicondutores. E, sim, também o calcário (cimento), as rochas britáveis e a areia, todos indispensáveis para a qualidade de vida, por suas essencialidades à infraestrutura urbana, à mobilidade, à habitação. São insumos silenciosos, mas estruturantes, que sustentam o cotidiano e os avanços tecnológicos. No entanto, todos eles parecem perder a vitrine da exposição para uma prática que já parece integrada à cultura brasileira: os desvios de conduta representados num substantivo feminino que também nos é muito familiar — a corrupção. Resumida numa “forma de desonestidade ou crime praticado por uma pessoa ou organização a quem é confiada uma posição de autoridade, a fim de obter benefícios ilícitos ou abuso de poder para ganho pessoal”, vem de forma recorrente ocupar posição de destaque, agora no cenário da mineração.

.......A mais recente de suas variações refere-se a uma hipotética e ampla articulação que teria reunido interesses condenáveis e irregulares de empresários, dirigentes de órgãos públicos e apadrinhados políticos, em benefício próprio. Isolado ou já contido, trata-se apenas de mais um episódio em meio à sucessão de tantos outros já expostos, combatidos e, em grande parte, esquecidos — agora gestado no setor de mineração e atingindo sua reputação, ainda que este possa figurar, em parte, como vítima. A recorrência desses casos evidencia não apenas falhas sistêmicas, mas também a fragilidade da memória institucional e da capacidade de extrair lições de nossos próprios erros.

.......A mineração enfrenta o duplo desafio de comunicar sua importância estratégica para o futuro — em especial sua dimensão geoeconômica diante das demandas da economia verde, da descarbonização e da transição energética — e, ao mesmo tempo, mitigar os riscos reputacionais decorrentes de práticas dissociadas de sua atividade-fim. Reconstruir a credibilidade do setor perante uma sociedade cada vez mais exigente, polarizada e sensível a escândalos é condição indispensável para que o chamado “país do futuro” possa também afirmar-se no presente.

.......Para isso, não bastam campanhas, mas sobretudo é preciso uma mudança de cultura, uma pedagogia da transparência, uma ética da responsabilidade que envolva todos os atores da cadeia mineral. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas a reputação de um setor, mas a capacidade de o país aproveitar, com justiça e sustentabilidade, o potencial de suas riquezas minerais.