.......A concepção do orçamento das empresas é uma daquelas tarefas que exige - além do conhecimento profundo das variáveis de mercado em que cada uma opera e das projeções da macroeconomia – a coleta e análise das informações que impactam diretamente cada negócio. Esse exercício requer dos gestores, equipes de produção e vendas, um certo grau de precisão para que os resultados não se desviem das metas esperadas e que, evidentemente, pautam o desempenho dos executivos à frente dos negócios. Mais do que dispor das informações e interpretações corretas das variáveis de mercado, o cenário no qual os negócios são projetados mostram uma peculiaridade que já parece integrar o modus operandi nacional. Essa peculiaridade – a alta possibilidade da influência da prestidigitação no delineamento do cenário de mercado - impõe cautela adicional aos gestores nas suas previsões orçamentárias, que por certo impactará a sua capacidade de realização do que foi projetado.
.......Revisitando uma edição antiga da “Areia & Brita” (nº 45 – jan. 2009) - que estampa em sua capa uma foto de viaduto em construção no trecho sul do rodoanel metropolitano - depara-se com um artigo intitulado “Agregados – Perspectivas para 2009”, que apresentava um cenário detalhado da evolução da obra, incluindo consumos de agregados e concreto. Nele encontramos um dos mais emblemáticos e notórios exemplos do cabuloso exercício de se conceber uma projeção de mercado baseada nas informações ditas oficiais, refletido no caso do “Rodoanel Metropolitano de São Paulo”. Trata-se de um projeto concebido em 1.974 pelo governador Laudo Natel, que demorou 24 anos para ser retomado e lançado oficialmente pelo governador Mário Covas em 1.998. Em tom otimista para o setor de agregados e justificável naquele momento, o artigo apresentava detalhes da obra, com previsões de datas de entregas de todos os trechos até meados de 2014, fechando os seus projetados 178 km de extensão.
.......A distância dessas projeções então feitas para a realidade - que tem agora previsão para conclusão em setembro de 2026, com a entrega do subtrecho que interliga a rodovia Fernão Dias à Avenida Raimundo Pereira de Magalhães – é grande. Pode ser medida como sendo de 51 anos (projeto do governador Laudo Natel) ou de 27 anos (referência ao lançamento feito pelo governador Mário Covas). De qualquer forma, o projeto transitou pelos mandatos de 9 governadores e isso justifica duvidar da exequibilidade de se ter projeções seguras de orçamentos para uma diversidade de serviços e produtos aplicáveis às obras de infraestrutura do país. O caso do “Rodoanel Mário Covas” não é único, porém é sim emblemático e ilustrativo da distância que se tem entre “planejar e realizar”.
.......Hoje, continuamos vivendo em cenários imprevisíveis e parecidos, não obstante a melhoria de gestão na administração de obras de infraestrutura seja visível no atual governo. Mas é inevitável não tomar outros exemplos, confrontando situações emanados de culturas que não exigem a consideração da variável da prestidigitação. Nestas, desponta uma capacidade de realização incomparável, porque a partir das necessidades detectadas percebe-se a concepção de um planejamento e foco para executar as tarefas que encurtam a distância entre “planejar e realizar”. Um desses invejáveis exemplos é a recuperação da infraestrutura japonesa após o tsunami de 2011. Em menos de um ano, 95% dos trechos danificados das rodovias já haviam sido reconstruídos, cobrindo centenas de quilômetros de estradas. Virou símbolo dessa capacidade de realizar a reconstrução de curto trecho da rodovia Great Kanto, que demandou 6 dias para ser completamente reparada.
.......No Brasil, grandes obras de infraestrutura costumam nascer cercadas de planos ambiciosos e cronogramas detalhados, mas raramente terminam dentro dos prazos previstos. A distância entre o que se projeta no papel e o que se concretiza revela uma fragilidade estrutural: a dificuldade de transformar previsão em realização. Enquanto países como o Japão impressionam pela rapidez na reconstrução de sua infraestrutura, aqui convivemos com atrasos crônicos, revisões intermináveis, aditamentos contratuais e prazos que se estendem por décadas. Esse contraste expõe não apenas falhas de planejamento, mas, sobretudo, uma incapacidade de realização.

