Editorial | Revista Agregados SP
Entre a realidade econômica e o discurso político
.......O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 voltou ao centro da agenda nacional e, mais uma vez, corre o risco de ser conduzido mais pela pressão política do que pela racionalidade econômica. Em um país que ainda luta para crescer de forma consistente, discutir mudanças estruturais dessa magnitude em um ambiente pré-eleitoral não apenas é inoportuno, como pode ser profundamente irresponsável.
.......A proposta em tramitação no Congresso prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para até 36 horas, com dois dias de descanso obrigatório. Trata-se de uma mudança que, embora bem-intencionada sob o ponto de vista social, carrega implicações econômicas que não podem ser ignoradas, especialmente em um país com baixa produtividade e elevada informalidade.
.......Os números são claros. Estudos da Confederação Nacional da Indústria indicam que o custo adicional para as empresas pode variar entre R$ 178 bilhões e R$ 267 bilhões por ano, representando um aumento de até 7% na folha salarial. Já simulações da Fundação Getúlio Vargas apontam que o custo da hora trabalhada pode subir 22%, com impacto potencial de redução de até 6,2% no PIB.
.......Há cenários ainda mais preocupantes. A própria FIESP já alertou que mudanças dessa natureza, sem aumento de produtividade, inevitavelmente pressionam custos, reduzem competitividade e incentivam a informalidade, que já atinge mais de 38% da força de trabalho no país.
.......É justamente aqui que reside o principal ponto de fragilidade do debate: produtividade. Enquanto países desenvolvidos avançam na redução da jornada com base em ganhos reais de eficiência, o Brasil ainda cresce a taxas inferiores a 0,5% ao ano em produtividade, muito abaixo da média global. Reduzir horas trabalhadas sem resolver esse gargalo é inverter a lógica do desenvolvimento.
.......É verdade que os avanços recentes em automação e inteligência artificial têm potencial para elevar a produtividade e, no futuro, abrir espaço para discussões mais maduras sobre redução de jornada. No entanto, esse processo exige tempo, escala e investimentos relevantes, condições que grande parte das empresas brasileiras, especialmente fora dos grandes centros ou em setores intensivos em capital, não consegue atender no curto prazo.
.......Além disso, a discussão ignora um problema já crítico: a escassez de mão de obra em diversos setores. A imposição de jornadas menores, sem aumento de produtividade, obrigará empresas a contratar mais trabalhadores para manter o nível de produção, algo que na prática, muitas não conseguirão fazer. O resultado tende a ser aumento de custos, redução de margens e, inevitavelmente, repasse ao consumidor.
.......E é impossível dissociar esse debate do contexto político. Propostas dessa magnitude, com impacto estrutural sobre toda a economia, exigem maturidade, dados robustos e amplo diálogo técnico. No entanto, avançam em ritmo acelerado, muitas vezes impulsionadas por agendas eleitorais e narrativas simplificadas. O risco é transformar uma pauta complexa em instrumento de curto prazo, com consequências de longo prazo.
.......Nos setores de mineração de brita e areia, os impactos seriam ainda mais severos. Trata-se de uma atividade intensiva em capital, com operações muitas vezes contínuas, forte dependência de escala e margens pressionadas por custos logísticos e regulatórios. A redução da jornada, sem mecanismos compensatórios claros, implicaria aumento direto no custo operacional, necessidade de mais turnos e maior dificuldade de formação de equipes qualificadas.
.......Em um setor que já enfrenta desafios como licenciamento ambiental, insegurança jurídica e crescente escassez de mão de obra especializada, adicionar uma variável de custo dessa magnitude pode comprometer investimentos, reduzir competitividade e impactar diretamente a cadeia da construção civil, essencial para o crescimento do país.
.......O Brasil precisa, sim, discutir o futuro do trabalho. Mas precisa fazê-lo com responsabilidade, base técnica e visão de longo prazo. Reduzir jornada é consequência de desenvolvimento, não seu ponto de partida.
.......Cabe aos atuais governantes a responsabilidade de conduzir esse debate com seriedade, transparência e compromisso com a realidade econômica do país. O setor produtivo, incluindo a mineração de agregados, não pode ser mais uma vez surpreendido por decisões que ignoram a complexidade da operação real.
.......O país precisa de reformas que aumentem produtividade, estimulem investimentos e gerem empregos sustentáveis. Qualquer caminho diferente disso será, no mínimo, um salto no escuro, e o custo, como sempre, será pago por toda a sociedade.

