Da tragédia no Chile às lições para a mineração brasileira
.......A mineração vai muito além de equipamentos, produção e resultados. Em um setor onde cada decisão pode representar a diferença entre a vida e a morte, liderança, segurança e preparo emocional tornam-se elementos indispensáveis para a sustentabilidade das operações. Foi com essa proposta que o SINDAREIA e o SINDIPEDRAS promoveram, no dia 5 de maio, um encontro voltado aos associados, reunindo palestras sobre liderança, tecnologia, cenário mineral e segurança do trabalho, além de uma visita técnica à mineração Itaquareia.
.......A programação contou com apresentações voltadas aos desafios contemporâneos da atividade mineral. Entre os palestrantes, Artur Silva, representante da MSA abordou as tecnologias disponíveis para utilização nas atividades de mineração, destacando ferramentas capazes de ampliar a eficiência operacional, fortalecer os controles de segurança e contribuir para processos mais sustentáveis e integrados à transformação digital do setor.
.......Outro tema discutido durante o encontro foi o cenário da mineração brasileira. CEO da Rigoletto Consultoria, Ivan Rigoletto apresentou reflexões sobre os principais aspectos da mineração no Brasil, incluindo agenda ESG da mineração brasileira, competitividade, imagem institucional e a necessidade de alinhamento entre produção, responsabilidade ambiental e desenvolvimento econômico.
.......O destaque do evento, no entanto, foi a participação do chileno Luis Urzúa, personagem central de um dos episódios mais emblemáticos da mineração mundial. Conhecido internacionalmente por liderar os 33 mineiros presos na Mina San José, no Chile, em 2010, Urzúa compartilhou reflexões sobre gestão de crises, comunicação e comportamento humano em situações extremas.
.......Responsável pela equipe que permaneceu isolada a aproximadamente 700 metros de profundidade durante 69 dias, ele relembrou os desafios enfrentados no subsolo e a necessidade de assumir rapidamente uma postura de liderança para preservar a sobrevivência do grupo. Segundo Urzúa, a organização foi determinante para manter o equilíbrio entre os trabalhadores. Houve racionamento de água e alimentos, definição de tarefas e manutenção da disciplina coletiva.
.......Durante a palestra, ele ressaltou que a comunicação objetiva foi essencial para evitar o colapso emocional dos mineiros. Também destacou as diferenças de comportamento entre gerações em situações críticas. “Os mais jovens têm força, mas muitas vezes não possuem preparo emocional”, afirmou, ao explicar que procurava manter conversas voltadas à esperança, à família e aos temas que ajudassem os trabalhadores a permanecerem mentalmente fortes.
.......Em meio à tensão, pequenas ações ajudaram a preservar a sanidade do grupo. Com pedras encontradas no local, os mineiros improvisaram peças de dominó para passar o tempo. Também realizavam orações coletivas, fortalecendo a união e resistência.
.......Urzúa revelou ainda que os trabalhadores não haviam recebido treinamento adequado para enfrentar uma situação daquela magnitude e afirmou que os mineiros não receberam indenizações relacionadas ao acidente. A mina, segundo ele, continua em operação sob outro nome.
.......Ao encerrar sua participação, deixou uma reflexão sobre humanidade e empatia dentro das operações minerárias. “Aprendi que todos somos iguais, independentemente da cor do capacete ou do poder aquisitivo. Precisamos escutar mais”, declarou.
.......A programação também reforçou o papel das entidades setoriais na promoção de uma mineração mais responsável. O presidente do SINDIPEDRAS, Daniel Debiazzi, destacou que o setor precisa avançar além dos discursos institucionais. Segundo ele, a mineração necessita fortalecer sua imagem perante a sociedade e construir caminhos pautados pela segurança, ética e valorização das pessoas. Para Debiazzi, esse movimento começa pelo trabalho desenvolvido pelos sindicatos junto às empresas associadas.
.......No período da tarde, os palestrantes realizaram uma visita técnica à Itaquareia, onde acompanharam de perto processos produtivos, práticas de segurança operacional e iniciativas voltadas à saúde ocupacional. O presidente do SINDAREIA, Diego Saraiva, acompanhou a atividade e esclareceu dúvidas relacionadas à gestão, liderança e desafios da atividade minerária.
.......O encontro reforçou uma discussão cada vez mais necessária no setor mineral: a segurança não deve ser tratada apenas como protocolo técnico, mas como parte da cultura organizacional. Em um cenário de transformação da mineração brasileira, experiências como a de Luis Urzúa evidenciam que liderança, escuta ativa, inovação e preparo humano continuam sendo os recursos mais valiosos dentro de qualquer operação.

